Joel Burigo

Minha história

Do barraco ao método

De uma garagem em Palhoça a uma empresa quebrada, um barraco sem geladeira em Minas e cem portas batidas em Belo Horizonte. A história inteira, com as quedas, e como ela virou os 6Ps.

11 capítulos · 8 min de leitura

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Joel, em desenho, caminhando.

2012, Ribeirão das Neves, Minas Gerais.

Um barraco de R$ 300 de aluguel. O colchão fica em cima de tijolos, porque cama não tem. Geladeira também não.

Eu tenho 25 anos. A empresa que abri em Santa Catarina acabou de quebrar. Vim para Minas atrás de uma oportunidade que, quando cheguei, não existia.

Começo por aqui porque é o ponto mais baixo. Mas a história não começa aqui. Ela começa numa garagem em Palhoça, passa por uma casa de madeira, por uma avenida de Belo Horizonte e por uma tarde de julho de 2017. E termina, por enquanto, num jeito de vender que qualquer empresa pode usar.

Bora do começo.

011987 a 1994Ponte do Imaruim, Palhoça (SC)

A garagem do meu avô

Nasci em 13 de março de 1987.

Aos 5 anos, eu morava com os meus avós maternos na Ponte do Imaruim, em Palhoça. A primeira lembrança de trabalho que eu tenho é dali: a marcenaria na garagem do meu avô. Madeira entrando de um jeito, saindo de outro, e alguém pagando por isso.

O meu pai tinha um bar no centro comunitário do bairro. Balcão, freguês, conta no fim do dia.

Criança não entende de negócio. Mas entende o que vê. E o que eu via era gente vivendo do que fazia com as mãos e do que conseguia vender.

Aos 7, a gente se mudou para uma casa de madeira no Jardim Eldorado. Foi a minha casa até os 18.

Criança não entende de negócio. Mas entende o que vê.

021996 a 2001Jardim Eldorado, Palhoça (SC)

Quando a venda do mês apaga a luz

Dos 9 aos 14 anos, mais ou menos, a minha mãe trabalhava com vendas.

E teve fase em que a luz era cortada. Teve fase em que a carne não cabia no orçamento, e a carne virava soja.

Conto sem drama. Muita gente que está lendo passou por coisa parecida, ou pior. Conto porque foi ali que eu vi a venda de dentro de casa, antes de saber o nome de qualquer coisa: quando o mês da minha mãe era bom, a luz ficava acesa. Quando não era, apagava.

E o mês ruim não avisava. Ele só chegava.

Anos depois eu ia ver a mesma coisa em empresa de todo tamanho. O dono descobre que o mês foi ruim quando o mês já acabou.

Quando o mês da minha mãe era bom, a luz ficava acesa. Quando não era, apagava.

032004 a 2010Palhoça e São José (SC)

O primeiro site e o desvio

Aos 17, em 2004, comecei a fazer sites, anúncios e e-mail marketing. Era trabalho, e era o que eu sabia fazer melhor.

Aos 18, os meus pais se separaram, e o meu pai se afastou. Pouco depois, fui morar no Kobrasol, em São José, com a minha mãe e o meu irmão.

E aí vem a parte que muita história de sucesso pula. Entre 2009 e 2010, me envolvi com drogas. Não vou enfeitar nem esconder. Foi um desvio de verdade.

Foi dele que veio a decisão de mudar de direção.

Ninguém muda porque leu uma frase motivacional. A gente muda quando o custo de ficar fica maior que o medo de sair. Eu guardei essa ideia. Ela vale para gente e vale para empresa.

A gente muda quando o custo de ficar fica maior que o medo de sair.

042010 a 2012Itajaí (SC)

Crescer, e depois quebrar

Em 2010, aos 23, abri a minha primeira empresa, em Itajaí.

Ela cresceu muito. Esse é o detalhe que mais ensina. Não quebrou por falta de cliente. Depois do crescimento vieram os problemas com o sócio, e o caixa apertou, por uma gestão ruim. Em 2012, ela quebrou.

Repare na ordem. Primeiro o faturamento sobe, a conta parece cheia, todo mundo comemora. Ninguém sabe dizer quanto daquele dinheiro já tem dono. Quando descobre, é tarde.

2012 foi o ano em que tudo mudou ao mesmo tempo. Depois de completar 25 anos, saí de Santa Catarina.

Não quebrou por falta de cliente. Quebrou depois de crescer.

Joel, em desenho, com a mão na testa.
052012Ribeirão das Neves (MG)

Sem geladeira

Fui para Minas com a namorada que eu tinha na época. Ela era mineira, tinha família lá e tinha um filho. O meu sogro da época disse que tinha uma oportunidade para mim. Quebrado, eu fui atrás.

Chegando lá, não tinha nada.

Foi assim que fui parar no barraco do começo desta história, em Ribeirão das Neves. Aluguel de R$ 300. Colchão em cima de tijolo. Sem geladeira.

Uns seis meses depois de chegar, o namoro acabou. Eu estava a mais de mil quilômetros de casa, sem empresa, sem dinheiro e sem plano.

Sem geladeira, não existe estoque. Nem de comida, nem de folga. Você vive o dia. Compra hoje o que come hoje.

Empresa sem método vive igual. Sem reserva de cliente, sem previsão, resolvendo o que aparece hoje e torcendo pelo amanhã.

Sem geladeira, não existe estoque. Nem de comida, nem de folga.

R$ 300
de aluguel no barraco
0
geladeira
6 meses
até o namoro acabar
25
anos de idade
062013Avenida Afonso Pena, Belo Horizonte (MG)

Mil cartões, cem portas

Em 2013, fui trabalhar terceirizado nos Correios, no Centro de Tratamento de Encomendas. O salário era de uns R$ 1.400.

Depois dos Correios, fiz a coisa mais simples e mais difícil que eu sabia fazer: imprimi mil cartões de visita e fui para a Avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte.

Bati em mais de cem portas.

O primeiro site saiu por R$ 500, com uma condição: o cliente só pagava se aprovasse. Eu entreguei. Ele aprovou, pagou e me indicou. E a indicação trouxe a próxima.

Essa cena é uma aula de venda em miniatura.

Cem portas para um sim. Isso tem nome: funil. Para cada venda fechada, existe um monte de conversa que não deu em nada. Quem não sabe quantas portas cada sim custa acha que vender é sorte.

"Só paga se aprovar." Quem não me conhecia não tinha motivo nenhum para confiar em mim. A condição tirou o risco do lado dele e pôs do meu. Oferta boa é isso: o cliente enxerga que vai dar certo.

A indicação. O cliente satisfeito fez a venda que eu não tinha dinheiro para fazer. Ótimo. O perigo é quando a indicação vira o único jeito de vender.

Cem portas para um sim. Isso tem nome: funil.

072014 a 2015Belo Horizonte (MG)

Virando, devagar

2014 foi o ano em que comecei a virar. Moradia melhor. Geladeira, finalmente.

Fui trabalhar numa empresa de educação profissional e comecei a pegar projetos maiores. No fim de 2014, fui para uma empresa de sistemas, já com mais clientes.

Em 2015, transformei essa empresa de sistemas em agência, e ela dobrou de tamanho. Mostrei ao dono o mundo do marketing e das vendas, ainda sem a profundidade que veio depois.

Esse "ainda sem a profundidade" importa. Dá para crescer bastante só com esforço e bom senso. Muita empresa cresce assim. Mas o esforço tem teto. Chega uma hora em que o dono não dá conta de estar em tudo, e o que funcionava começa a falhar sem ninguém saber por quê.

Dá para crescer no esforço. Mas o esforço tem teto.

Joel, em desenho, contando nos dedos.
082016 a 2018Belo Horizonte (MG) e Palhoça (SC)

O dia em que as peças se encaixaram

Em dezembro de 2016, conheci por aplicativo a mulher com quem sou casado hoje. No Natal daquele ano, voltei a Santa Catarina para ver a família, depois de quase cinco anos longe. Saí quebrado. Voltei de pé.

Em janeiro de 2017, a gente começou a namorar.

2017 também foi o ano do salto no trabalho. Saí da agência para fazer consultoria para uma distribuidora. Ali comecei a ligar coisas que eu sempre tinha visto separadas: marketing, vendas, oferta e público.

E me debrucei a estudar. Li muito.

Em 27 de julho de 2017, as peças se encaixaram. É a data que eu marco como a origem dos 6Ps. A ideia que saiu dali é a base de tudo o que eu faço hoje: as peças da venda não funcionam soltas. Não adianta caprichar no anúncio se a oferta é fraca. Não adianta oferta boa para o público errado. Não adianta público certo se o contato chega e se perde porque ninguém anota nada.

Em 2018, comecei a trabalhar com uma operação de franquias. Fomos morar juntos no Castelo, em Belo Horizonte, e veio um golden retriever para a casa.

No fim de 2018, pedi ela em casamento na casa de praia dos meus avós, em Palhoça. A mesma Palhoça da garagem e da casa de madeira.

As peças da venda não funcionam soltas.

092019 a 2020Belo Horizonte (MG)

Errar de novo, com mais dinheiro na mesa

Seria ótimo dizer que dali para a frente foi só subida. Não foi.

Em 2019, fiz duas apostas ao mesmo tempo: uma agência que virou aceleradora de negócios e uma plataforma de dropshipping, a venda online em que o produto sai direto do fornecedor para o cliente. Nenhuma das duas saiu como eu planejei. A plataforma só deu prejuízo. A aceleradora pagou algumas contas, mas não me deixou rico.

Aí veio 2020. Pandemia. Cancelamentos, pedidos de desconto, projetos suspensos, operação reduzida. O casamento foi adiado. Fiquei muito mal de grana.

No meio disso, comecei a trabalhar com uma empresa de SEO, o trabalho de fazer um site aparecer no Google sem pagar anúncio.

Errar uma vez não protege ninguém de errar de novo. O que protege é um jeito de olhar o negócio que mostre onde está o problema antes de o dinheiro ir para a mesa.

Errar uma vez não protege ninguém de errar de novo.

Joel, em desenho, dando de ombros.
102021 a 2024Florianópolis (SC)

De volta para casa

Em 2021, a gente se mudou para Florianópolis e casou. Quase dez anos depois de sair de Santa Catarina quebrado, eu estava de volta.

Já morando aqui, recebi a proposta de ser sócio, a distância, daquela empresa de SEO, como CGO. CGO é a sigla em inglês para diretor de crescimento: a pessoa que responde por fazer a empresa vender mais.

Em janeiro de 2023, saí da sociedade, por discordar da forma como a empresa era conduzida. Segui com alguns clientes antigos da agência.

Em outubro de 2024, nasceu o meu filho.

Quase dez anos depois de sair quebrado, eu estava de volta.

112025 a 2026Florianópolis (SC)

Dentro da empresa, não do lado

Trabalhei anos com agência. Até 2025, ela era o centro do meu trabalho.

Em 2025, mudei o foco. Virei sócio e CGO, dentro das empresas, participando das decisões e da execução. Fiquei com poucos clientes de agência, alguns terminando contrato.

A diferença é grande. De fora, você entrega o anúncio, o site, a campanha, e torce para o resto da empresa dar conta. De dentro, você vê o resto. Vê a proposta que sai com desconto demais, o contato que ninguém respondeu, o vendedor que cada um treinou de um jeito.

E em 2026 começou esta fase aqui: juntar tudo isso num método que qualquer empresa possa usar, com a tecnologia e a IA fazendo o trabalho pesado.

De fora, você entrega a campanha e torce. De dentro, você vê o resto.

Joel, em desenho, sentado num banquinho.

Por enquanto, o fim

Menos sorte, mais método

Se eu tivesse que resumir a estrada inteira numa frase, seria esta: venda não é dom nem sorte. É um conjunto de peças que dá para montar, medir e ajustar.

A garagem do meu avô me mostrou que se vive do que se faz. A luz da casa de madeira me mostrou que a venda do mês decide o resto. O barraco me mostrou o que é viver sem estoque. As cem portas me mostraram o funil antes de eu saber o nome. E a quebra me mostrou que crescer sem controle é só um jeito mais caro de cair.

Os 6Ps das Vendas Escaláveis são o jeito que eu achei de organizar isso para quem não precisa passar pelo barraco para aprender.

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