Joel Burigo

Vendas e crescimento

Improviso não escala: por que o talento sem processo trava a empresa

Se a venda e a entrega moram na cabeça de alguém, a empresa cresce até o tamanho dessa cabeça. Como tirar o trabalho da memória e pôr no papel, um degrau de cada vez.

23 de outubro de 20268 min de leituraP5 · Processos

Quando foi a última vez que você tirou férias sem levar o celular para a praia?

Se a resposta é "nunca", ou "tirei, mas atendi cliente da cadeira de sol", a empresa não tem um problema de dedicação. Tem um problema de memória. Tudo o que faz a venda andar está guardado num lugar só: na sua cabeça.

Vender bem não segura uma empresa

Eu aprendi isso do jeito caro. Em 2010, abri minha primeira empresa, em Itajaí. Em 2012, ela quebrou. A empresa tinha crescido muito. Depois vieram os problemas com o sócio e o caixa apertou, por uma gestão ruim, até ela quebrar.

Não faltou venda. Faltou gestão: saber para onde ia o dinheiro, quem decidia o quê e como o trabalho andava sem depender de uma ou duas cabeças. Crescer sem controle de caixa e sem gestão quebra até empresa que vende bem. O crescimento não resolve a bagunça. Ele aumenta o tamanho dela.

A gráfica que só funciona com o dono

Você não precisa quebrar para ver o começo desse filme. Pensa numa gráfica de bairro. O dono é bom de venda. Conhece cada cliente pelo nome, sabe quem paga em dia, faz o orçamento de cabeça e fecha no balcão. Durante anos, isso basta.

Aí a gráfica cresce. Entra um vendedor novo, depois outro. E começam as perguntas:

  • "O cliente pediu desconto, posso dar?"
  • "Esse orçamento eu faço como?"
  • "O pedido do mercado já foi para a produção?"
  • "Faz duas semanas que aquele cliente pediu proposta. Alguém ligou para ele?"

Tudo para na mesa do dono. O vendedor novo leva meses para render, porque não tem onde aprender a não ser olhando. Cada proposta é feita do zero. O follow-up, aquele contato depois do primeiro orçamento para ver se o cliente decidiu, acontece quando alguém lembra. E quase ninguém lembra.

O dono trabalha mais do que nunca, e a gráfica vende o mesmo que antes. Ele virou o gargalo da própria empresa.

A ideia em uma frase

Improviso não escala. O que está escrito, sim.

Improvisar funciona. Muita empresa boa nasceu assim, no faro do dono. O problema é que o improviso tem três defeitos que só aparecem quando a empresa cresce:

  1. Não passa para outra pessoa. Como você ensina "no feeling"? Não ensina. A empresa fica do tamanho de quem sabe fazer.
  2. Não dá para prever. Um mês é ótimo, o outro é ruim, e ninguém sabe explicar por quê. Foi o mercado? Foi sorte? Sem o trabalho registrado, não há como saber.
  3. Não dá para melhorar. Se cada venda é feita de um jeito, você não enxerga o padrão. Não sabe o que repetir nem o que cortar.

Onde isso aparece nos 6Ps

Nos 6Ps, esse é o pilar dos Processos, e a pergunta dele é direta: o trabalho acontece igual todo dia, sem depender de memória? O sinal de que travou também: cada um faz de um jeito, e o mesmo erro se repete.

O pilar sobe numa escada de cinco degraus, a mesma para os seis Ps:

Nível Como fica nos Processos
0. Não existe Ninguém sabe dizer o passo a passo.
1. Improviso Alguém sabe, mas de cabeça.
2. Repetível A rotina está escrita, e quem chega novo segue e faz igual.
3. Medido Prazo, retrabalho e erro acompanhados, com meta.
4. Automatizado Sistemas passam o trabalho de uma área para a outra, e a IA faz os passos repetitivos.

A gráfica do exemplo está no nível 1. Existe um jeito de trabalhar, só que ele mora na cabeça do dono e muda a cada vez.

E aqui vai a regra que mais economiza dinheiro: não dá para pular degrau. Muita empresa sai do nível 1 direto para a compra de um sistema caro, achando que a ferramenta vai organizar a casa. Não vai. Automatizar o que não está escrito é automatizar a bagunça. Ela só passa a acontecer mais rápido. A ferramenta entra no topo da escada porque depende de processo escrito e de número medido.

Por que tirar da cabeça funciona

Não é gosto pessoal por planilha. Tem estudo por trás.

O Daniel Kahneman, em Rápido e Devagar, retoma as pesquisas do psicólogo Paul Meehl para mostrar que regras simples e escritas costumam prever melhor do que o julgamento de especialistas. O especialista é bom, mas muda de critério de um caso para o outro sem perceber. A regra escrita não muda. É exatamente a passagem do nível 1 para o 2.

E lembra do dono da gráfica, que virou gargalo? O Eliyahu Goldratt e o Jeff Cox contam, em A Meta, a história de um gerente de fábrica que descobre que a produção inteira anda no ritmo da máquina mais lenta. Uma hora perdida no gargalo é uma hora perdida para a fábrica toda, e acelerar o resto não adianta nada. Na empresa que vive de improviso, a máquina mais lenta é o dono. Enquanto toda decisão passar por ele, contratar mais vendedor só aumenta a fila na mesa dele.

O que uma rotina escrita precisa ter

Processo escrito não é um manual de cem páginas que ninguém abre. É uma rotina curta para cada etapa do trabalho, do primeiro contato ao pós-venda, com três coisas:

  • Os passos. O que se faz, em que ordem.
  • O que conta como pronto. "Orçamento enviado" é pronto? Ou pronto é "orçamento enviado e cliente confirmou que recebeu"?
  • O que precisa estar pronto para passar à área seguinte. O pedido só vai para a produção com arte aprovada, quantidade e prazo. Sem isso, volta.

Isso vale para a venda e para o que vem depois dela: entrega, cobrança, atendimento. É na passagem de uma área para a outra que o pedido some, que o cliente fica esperando e que cada um jura que fez a sua parte.

Um exemplo bem simples, para o follow-up da gráfica: no dia seguinte ao orçamento, uma mensagem perguntando se ficou alguma dúvida. Uma semana depois, uma ligação. Duas semanas depois, se não houve resposta, o orçamento é marcado como perdido, com o motivo. Escrito assim, qualquer vendedor faz igual, e ninguém depende de lembrar.

Como escrever o primeiro processo

Você não precisa parar a empresa para isso. Três passos dão conta:

  1. Grave você fazendo. Na próxima venda, grave a ligação ou a reunião, com a autorização do cliente. Você faz muita coisa no automático e nem percebe. A gravação mostra.
  2. Escreva o que fez. Que perguntas você fez, em que ordem, como respondeu quando o cliente achou caro. Vire isso numa lista curta de passos.
  3. Teste com outra pessoa. Dê o escrito para alguém da equipe seguir. Se ela travar, o problema está no texto, não nela. Ajuste e teste de novo.

O teste do passo 3 é a própria régua do nível 2: está escrito, e outra pessoa consegue fazer igual. Se só você entende o que escreveu, ainda é nível 1, só que no papel.

E o escrito não fica parado. Quando um erro acontece, a correção entra na rotina. Os cinco porquês, que o Eric Ries descreve em A Startup Enxuta, ajudam aqui: pergunte "por quê?" até chegar à causa. O pedido atrasou. Por quê? A arte chegou sem aprovação. Por quê? Ninguém confere antes de mandar para a produção. Aí está a linha que falta na rotina.

Processo pede gente com dono

Rotina escrita sem dono vira papel na gaveta. Por isso os Processos andam junto com as Pessoas, o pilar que pergunta quem decide e executa, e com que preparo e autonomia.

Lembra das perguntas que paravam na mesa do dono da gráfica? Metade delas some quando está escrito quem decide o quê. Até quanto de desconto o vendedor dá sozinho. A partir de quanto, a decisão sobe, e para quem. Quem é o dono da passagem do pedido para a produção.

E mais uma coisa que quase ninguém faz: para cada papel de que a venda depende, uma segunda pessoa que sabe fazer. Assim, quando alguém sai de férias, a empresa não sai junto.

No livro Execução, o Larry Bossidy e o Ram Charan colocam o processo de pessoas como o mais importante da empresa, antes da estratégia e das operações: a pessoa certa no lugar certo, e gente preparada para assumir. Processo e pessoas sobem a escada juntos.

"Mas processo mata a criatividade"

É a objeção mais comum, e ela tem um fundo de verdade. Ninguém quer um vendedor recitando texto decorado.

Só que a rotina escrita não tira o talento do jogo. Ela tira o talento do trabalho repetitivo. O vendedor bom não precisa gastar energia lembrando quem ligar, montando proposta do zero ou caçando o status do pedido. Sobra cabeça para o que só ele faz bem: ouvir o cliente e conversar.

Pensa no músico de jazz. Ele improvisa em cima de uma base que conhece de cor. Sem a base, não é improviso. É barulho.

E o "no meu negócio é diferente"? Pode ser. Mas toda empresa que vende tem um primeiro contato, uma proposta, uma entrega e uma cobrança. O conteúdo de cada etapa muda de negócio para negócio. A necessidade de escrever, não.

Para levar

Talento faz a empresa nascer. Vender bem faz ela crescer. Mas o que segura o crescimento é a gestão, e ela começa pelo que está escrito, para a empresa não depender de uma pessoa só.

Comece pequeno: escolha a etapa em que o mesmo erro mais se repete e escreva a rotina dela esta semana. Depois, entregue para outra pessoa seguir. Se ela fizer igual, você subiu um degrau.

Menos sorte, mais método.

Se quiser saber em que degrau está cada pilar da sua empresa, faça o Diagnóstico grátis. E, se quiser mais ideias como esta, receba o "Do achismo ao método" por e-mail.

CompartilharWhatsAppLinkedIn
Joel Burigo

Estrategista de crescimento e criador dos 6Ps das Vendas Escaláveis. Mostra como pôr a tecnologia a serviço da venda, com método. Conheça a história.

Toda semana no seu e-mail

Do achismo ao método

Toda semana, uma ideia curta: uma cena do dia a dia, a história por trás e o que dá para usar na segunda-feira. No fim, os links da semana nas redes.

Um e-mail por semana. Nenhuma nota na testa. Cancele quando quiser.