Joel Burigo

Tecnologia e IA

Planilha ou CRM pago: quando vale trocar

CRM é o caderno da venda: quem é o cliente, o que já foi dito e qual o próximo passo. Antes de perguntar se o seu é grátis ou pago, veja se ele já faz esse trabalho e quando a planilha começa a perder venda.

23 de outubro de 20268 min de leituraP4 · Programas

O cliente pediu orçamento na terça. O vendedor ficou de ligar na sexta.

Na sexta, ninguém lembrou.

Na segunda, o cliente já tinha fechado com outro. Não porque o outro era melhor. Porque o outro ligou.

Se você vende, já viu essa cena. Talvez nem tenha visto, e é esse o problema: a venda que some sem ninguém perceber não aparece em relatório nenhum.

A gráfica e o caderno

Pense numa gráfica pequena. Os pedidos chegam pelo WhatsApp, pelo telefone, pelo balcão e pelo e-mail. O dono anota uns no celular, outros num papel colado no monitor, outros numa planilha que só ele entende. E ele esqueceu a senha da planilha.

Enquanto entram cinco pedidos por semana, dá certo. O dono lembra de todo mundo. Aí a gráfica cresce, entra um vendedor, chegam trinta orçamentos por semana, e a memória do dono vira o gargalo da empresa. Gargalo é o ponto mais estreito, o que segura todo o resto.

Ninguém decide perder cliente. O cliente se perde no meio do caminho entre um bilhete e outro.

CRM é o caderno da venda

CRM é a sigla em inglês para gestão do relacionamento com o cliente. O nome assusta, mas a ideia cabe numa frase: CRM é o caderno da venda.

Ele guarda, de cada cliente, três coisas:

  • quem é;
  • o que já foi conversado;
  • qual o próximo passo, e quando.

Só isso. O resto (funil colorido, relatório, automação) é enfeite em volta dessas três colunas. Sem anotação, o follow-up, aquele retorno depois do primeiro contato, mora na memória do vendedor. E a memória do vendedor tira férias.

Por isso a primeira regra não depende de ferramenta nenhuma: nenhum cliente fica sem próximo passo com data.

Grátis ou pago é a pergunta errada

Quase todo mundo começa pela dúvida "uso uma planilha, um CRM grátis ou um pago?". É como escolher a marca do caderno antes de saber o que vai escrever nele.

A pergunta certa é: em que degrau a sua venda está?

Nos 6Ps, isso é parte do pilar Programas: como você vende, e com quais sistemas, dados e automações. E todo pilar sobe na mesma escada, de 0 a 4:

  1. Improviso. Alguém sabe em que pé está cada venda, mas de cabeça, no celular ou numa planilha solta.
  2. Repetível. Todo contato num registro só, com origem, etapa, responsável e próximo passo com data. Outra pessoa abre qualquer venda e entende onde ela está sem perguntar.
  3. Medido. Você acompanha a conversão entre as etapas, o tempo de resposta e as vendas paradas, com frequência fixa. A previsão do mês sai do funil, não do palpite.
  4. Automatizado. Os contatos entram sozinhos, sem duplicar, recebem resposta e acompanhamento automáticos, e o sistema avisa o que travou.

Repara numa coisa: para subir do 1 para o 2, uma planilha bem feita resolve. Ela precisa ser uma só, com as três colunas, e todo mundo precisa usar. Ferramenta paga não pula degrau. Quem compra o sistema mais caro do mercado e continua anotando no papel colado no monitor está no nível 1, só que agora com mensalidade.

A troca faz sentido quando o que você precisa está no degrau 3 ou 4. Aí a planilha começa a atrapalhar.

Os sinais de que a planilha ficou pequena

Não existe um número mágico de clientes a partir do qual você "precisa" de CRM. Existem sinais. Se três ou mais destes aparecem na sua semana, a planilha virou gargalo:

  • Retorno esquecido. Você manda a proposta, anota "ligar em três dias" e não liga. E antes que você diga "mas eu tenho boa memória": ninguém tem para trinta clientes ao mesmo tempo.
  • Ninguém sabe o número. Alguém pergunta quantas negociações estão abertas e a resposta é "umas vinte, trinta?".
  • O mês é uma surpresa. Dia 20, perguntam quanto vai fechar, e a resposta é "depende".
  • Tudo para quando você sai. Dois dias fora e ninguém sabe em que pé está cada cliente.
  • Cada um anota de um jeito. Um usa planilha, outro o celular, outro um caderninho de verdade. Não dá para somar.
  • A sexta-feira some montando relatório. Horas juntando dado de lugar diferente para descobrir o que um sistema mostraria na hora.

Os três primeiros dizem que você está no degrau 1 e precisa chegar ao 2. Os três últimos dizem que você já tem registro, mas precisa medir e automatizar. São problemas diferentes, e o remédio também.

Por que a memória não dá conta

Não é preguiça nem desorganização. É o jeito como a cabeça funciona. E quatro livros explicam isso de lados diferentes.

A cabeça é para pensar, não para guardar. O David Allen, em A Arte de Fazer Acontecer, chama de "circuito aberto" tudo o que você prometeu fazer e ainda não fez. Cada retorno pendente é um circuito aberto, e a cabeça fica tentando lembrar dele na hora errada: no banho, no trânsito, às duas da manhã. A saída dele é tirar tudo da cabeça, pôr num sistema confiável e revisar esse sistema uma vez por semana. É exatamente o que o caderno da venda faz com os clientes.

Regra escrita erra menos que palpite. O Kahneman mostra em Rápido e Devagar, retomando os estudos do Paul Meehl, que regras simples e escritas costumam prever melhor do que o julgamento de especialistas. O especialista se deixa levar pelo caso da vez; a regra, não. Na venda, o "acho que esse cliente fecha" é o especialista. O "proposta enviada há 10 dias, sem resposta, ligar hoje" é a regra.

Previsão sai do funil, não do achismo. O Ross e a Tyler, em Receita Previsível, tornam a receita previsível medindo cada etapa do funil, o caminho que o cliente faz do primeiro contato até a compra. Se você sabe quantos orçamentos viram venda e quanto tempo isso leva, o "depende" do dia 20 vira um número. Só que não dá para medir o que não foi anotado. Sem registro, não existe funil, só lembrança.

Melhorar fora do gargalo rende pouco. O Goldratt e o Cox, em A Meta, mostram que toda operação tem um ponto que limita o resto, e que ganho em qualquer outro lugar quase não muda o resultado. Por isso comprar o CRM mais completo do mercado não resolve nada se o gargalo é ninguém anotar o próximo passo. Primeiro você destrava o gargalo. Depois pensa no resto.

Os quatro dizem a mesma coisa de jeitos diferentes: venda que depende de memória depende de sorte.

"Mas no meu negócio é diferente"

Três objeções aparecem sempre. Vamos a elas.

"Meu cliente compra no balcão, não tem como anotar um por um." Justo. Numa padaria ou numa loja de rua, ninguém vai cadastrar quem comprou pão. Aí o registro vira medida do todo: quantos entram, quantos compram e quanto cada um gasta, por dia e por canal. O caderno continua existindo, só que com outras colunas.

"CRM é caro." O caro é a venda que você nem viu sumir. Faça a conta com os seus números: quantos orçamentos saem por mês, quantos ficam sem retorno e qual o seu ticket médio, o valor médio de cada venda. Se uma única venda recuperada paga a mensalidade, a conta fecha. Se não paga, fique na planilha por mais um tempo, e use bem.

"Meu time não vai usar." Esse é o risco de verdade, e não é culpa da ferramenta. Sistema que ninguém usa não conta. Por isso a ordem importa.

Como trocar sem bagunça

O erro mais comum é achar que o CRM vai criar o processo. Ele não cria. Ele organiza e automatiza o processo que já existe. Se a venda não tem etapas definidas, o sistema novo só deixa a bagunça mais bonita. Isso é assunto do pilar Processos, e vem antes.

Uma ordem que funciona:

  1. Escreva o caminho da venda. Quais são as etapas, do primeiro contato ao fechamento, e o que faz o cliente passar de uma para a outra.
  2. Limpe o que você já tem. Junte as planilhas, tire os repetidos, separe quem é cliente de quem ainda está negociando.
  3. Configure o básico. As etapas, os campos que importam e a regra do próximo passo com data. Automação fica para depois.
  4. Treine com casos reais. Cada pessoa cadastra e move as próprias vendas, com você do lado. Uma hora bem usada vale mais que um manual de cinquenta páginas.
  5. Rode as duas coisas juntas por uns dias. Contato novo entra no sistema, a planilha velha fica só para conferência. Quando tudo bater, desligue a planilha.
  6. Crie o hábito. Primeira coisa da manhã, olhar o que vence hoje. Última coisa do dia, atualizar. E uma vez por semana, olhar os números com o time.

Só depois que isso roda vale ligar as automações: o lembrete de retorno, a mensagem de acompanhamento, o aviso de venda parada. Automatizar antes de ter processo escrito é pular degrau, e degrau pulado cobra a conta lá na frente.

O que levar daqui

Planilha, CRM grátis ou pago é a parte menos importante da decisão. O que importa é que cada cliente tenha nome, histórico e próximo passo com data, num lugar só, que todo mundo usa.

Comece pelo caderno. Quando o caderno ficar pequeno, troque de caderno.

Se quiser saber em que degrau está o seu pilar Programas, e os outros cinco, o Diagnóstico grátis ajuda a ver.

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Joel Burigo

Estrategista de crescimento e criador dos 6Ps das Vendas Escaláveis. Mostra como pôr a tecnologia a serviço da venda, com método. Conheça a história.

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